Nossa Senhora da Assunção e São José


Beata Teresa de S. Agostinho e companheiras

Virgens e mártires

São as dezessete Carmelitas Descalças do Mosteiro da Encarnação de Compiègne. Logo que a Revolução Francesa se desencadeou, ofereceram-se a Deus como vítimas de expiação para impetrar a paz à Igreja e ao Estado.

Ao estourar a Revolução Francesa, o Carmelo de Compiègne conta com 15 religiosas coristas, uma noviça, três conversas ou irmãs de véu branco e duas torneiras seculares.

Cinco anos mais tarde, dezesseis religiosas dessa comunidade (incluídas as duas torneiras) subirão ao cadafalso. Damos aqui uma breve resenha das cinco carmelitas que não morreram mártires.

Duas das monjas morrerão antes de 1794: Irmã Elisabeth de Jesus Maria (Boitel), que padecia de graves enfermidades, morrerá no Carmelo em fevereiro de 1791; tinha 55 anos. Em 31 de outubro de 1792, um mês e meio depois da expulsão do mosteiro, Irmã São Pedro de Jesus (d'Angest) falecerá aos 50 anos de idade numa casa de Compiègne. As outras três, no momento da prisão (junho de 1794) encontravam-se fora da cidade. Irmã Santo Estanislau da Providência (Legros) e Irmã Teresa de Jesus (Jourdain) haviam ido a Rosières, na Picardia, até março de 1794, à casa do irmão de Irmã Santo Estanislau, que estava sofrendo pela morte de sua esposa.

Também se livrará da guilhotina Irmã Maria da Encarnação, por não encontrar-se em Compiègne. Em março de 1794, havia viajado a Paris para resolver alguns assuntos de família. Sua estada na capital teve que prolongar-se devido a que a Administração exigia-lhe uma série de documentos que não era fácil conseguir. Correspondia-se regularmente com a priora. Francisca Genoveva Philippe nasceu em Paris, em 16 de novembro de 1761, era filha legítima do príncipe de Conti e recebeu uma brilhante educação. Mas em 1787, aos vinte e seis anos, depois de ser curada por intercessão da Beata Maria da Encarnação, entrou no Carmelo, tomando o nome de sua benfeitora. Graças a ela, conhecemos bem a personalidade das dezesseis carmelitas mártires, com quem viveu durante oito anos. Com efeito, em 1823 retirou-se ao Carmelo de Sens, onde escreveu uma resenha biográfica de suas companheiras a pedido de Dom Villecourt, futuro Cardeal, superior do Carmelo e vigário-geral de Sens. Estes preciosos documentos foram publicados em 1836 com o título L 'histoire des Religieuses Carmelites de Compiègne.

Irmã Maria da Encarnação acabava de morrer em 10 de janeiro desse mesmo ano. Ao falar de cada uma das mártires, colocaremos entre aspas a opinião de Irmã Maria da Encarnação e as informações que nos oferece sobre a prisão e condenação das religiosas.

Retrato das mártires carmelitas

Madre Teresa de Santo Agostinho

Era então a priora da comunidade.

Maria Madalena Claudine Lidoine nasceu em Paris aos 22 de setembro de 1722 e foi batizada na igreja de São Sulpício no dia seguinte ao seu nascimento. Recebeu no seio de sua família uma esmerada educação.

"Desde sua infância unia uma grande piedade a uma aguda inteligência, e desde muito jovem sentiu-se chamada ao estado religioso. Entrou em nossa casa das carmelitas de Compiègne em agosto de 1773, à idade de 21 anos. Tomou o nome da ilustre priora de nossa casa de Saint-Denis, sua augusta protetora, a Madre Teresa de Santo Agostinho". Trata-se de Madame Luísa de França, filha de Luís XV. Foi ela quem pediu à Delfina Maria Antonieta que pagasse o dote para que a jovem entrasse no Carmelo, pois seus pais não podiam fazê-lo.

Vários extratos de sua correspondência e algumas cartas de seu diretor espiritual (desconhecido) nos permitem apreciar suas grandes qualidades humanas e sobrenaturais. Nelas podemos descobrir uma alma mística em pleno período de purificação, uma grande calidez afetiva, um alto sentido comum e um abandono confiante nas mãos do Pai.

Onze anos depois de sua profissão foi eleita priora, em 1789 tinha trinta e sete anos e estava preparada para os grandes tormentos que a esperavam.

Irmã São Luís

Era a subpriora.

Maria Ana Francisca Brideau nasceu e foi batizada em 7 de dezembro de 1751, em Beltfort, e fez seus estudos no convento da Visitação de Compiègne, onde seu padrinho estava como "encarregado do quartel militar do rei". Isto pode explicar sua entrada no Carmelo de Compiègne aos 19 anos.

"O grande atrativo que sentia nossa querida irmã pela reza do Oficio Divino, seu interesse por conhecer bem as rubricas, sua pontualidade em assistir os atos da comunidade fizeram com que fosse eleita subpriora, oficio no qual se entendia perfeitamente com a Madre Priora... Era por natureza doce, modesta e silenciosa". Tinha 38 anos em 1789.

Irmã de Jesus Crucificado

Era a mais antiga de todas nessa comunidade em que "exerceu durante muitos anos o oficio de sacristã". Maria Ana Piedcourt nascera em Paris, em 9 de dezembro de 1715 e ali entrou no convento aos 19 anos.

Irmã Carlota da Ressurreição

Ana Maria Madalena Francisca Teresa Thouret nasceu em 16 de setembro de 1715, em Mouy, diocese de Beauvais. "Tinha um temperamento vivo e alegre" e verdadeira paixão pela dança. Aos 21 anos entrou no Carmelo, onde se desdobrou como enfermeira até o ponto de contrair uma deformação da coluna vertebral, que a fez sofrer muito. Foi também subpriora, ecônoma, primeira torneira e sacristã.

Irmã Eufrásia da Imaculada Conceição

Maria Cláudia Cipriana Brard nasceu a 12 de maio de 1736, em Bourth, no Eure, e entrou no Carmelo aos 20 anos. Cheia de vida, de grande imaginação, entusiasmada, um tanto original, "era, no entanto, de temperamento sério, e pela gravidade de seu aspecto ninguém poderia crer que fosse a alma de nossas recreações, pela graça e amenidade de seu falar". A rainha Maria Leczinska chamava-a sua "afabilíssima monja filósofa".

Mas sua vida no Carmelo não careceu de problemas. Em certo momento, ela mesma confessava que "tinha o coração amargurado e cheio de ressentimento" em relação à priora, porque esta não a havia eleito para nenhum ofício da comunidade. Apenas em fins de abril ou princípios de maio de 1794 pôde escrever a Irmã Maria da Encarnação, que se encontrava em Paris: "Querida irmãzinha, une-te a mim para cantar as misericórdias do Senhor e dar graças a sua infinita bondade por ter feito que caíssem dos meus olhos as enormes escamas que os cobriam e que me impediam ver o horroroso precipício aonde ia conduzir-me esse miserável e infernal espírito de orgulho e de inveja que sempre houve em mim". E humilhou-se com toda a sinceridade de seu coração.

Em 1789, tinha 53 anos.

Madre Henriqueta de Jesus

Maria Francisca de Croissy, sobrinha de segundo grau de Colbert, nasceu em Paris aos 18 de junho de 1745 e entrou no Carmelo aos 17 anos, depois de ter tentado fazê-lo aos 16. Recebeu o véu das mãos da rainha Maria Leczinska, que gostava de assistir a essas cerimônias.

Maria Henriqueta de Jesus "se fez apreciar mais pela índole de seu coração, sua terna piedade, seu zelo e o harmonioso conjunto de todas as virtudes religiosas que por seus dotes naturais e os conhecimentos que havia adquirido. Por isso a comunidade julgou-a digna de presidi-Ia, embora não tivesse ainda 34 anos". Foi reeleita priora, até 1786. Então Madre Teresa de Santo Agostinho confiou-lhe o cargo de mestra de noviças. Tinha 44 anos em 1789.

Irmã Teresa do Coração de Maria

Maria Ana Hanisset nasceu em Reims, em 1742, e entrou no Carmelo em 1763. "Dotada de uma grande sabedoria, prudência e discernimento", era a primeira torneira interna. Tinha 47 anos em 1789.

Irmã Teresa de Santo Inácio

Maria Gabriela Trézel nasceu em Compiègne em 4 de abril de 1743 e foi indiscutivelmente uma mística. Chamavam-na "o tesouro escondido" devido à profundidade de sua vida contemplativa feita de solidão e de silêncio. Às que estranhavam vê-Ia no coro sem livros, respondia: "Deus descobre em mim uma ignorância tão profunda, que pensa que ninguém senão Ele seria capaz de instruir-me, e por isso quer ter o incômodo de fazê-Io Ele mesmo".

"Nossa querida irmã - conclui Irmã Maria da Encarnação - foi no mundo (entre 1792 e 1794) o que havia sido no claustro, mantendo em meio às tormentas e tempestades um talante sempre sereno, tranquilo e agradável, que não era outra coisa que a prova de sua contínua união com quem era o único objeto de seus pensamentos, de seus desejos e de todos os seus afetos". Tinha 46 anos em 1789.

Irmã Júlia Luísa de Jesus

Rosa Crétien de Neuville nasceu em 30 de dezembro de 1741, em Euvreux, no Eure, e aos 18 anos casou­se com um primo carnal, do qual ficou viúva depois de cinco ou seis anos de casamento. Durante longos meses viveu encerrada em sua dor, sem querer ver ninguém; mas acabou por vencer esse "estado de melancolia" graças a seu tio, o sacerdote De Vaux, a quem confessou suas resistências à graça. Encontrou-se com Madame Luísa de França, que em 1776 orientou-a para o Carmelo de Compiègne.

Teve um noviciado difícil, mas "a partir do dia em que pronunciou os votos apareceram em sua frente a alegria e a serenidade, e substituíram seu aspecto grave ... ". Tinha 47 anos em 1789.

Irmã Maria Henriqueta da Providência

Nascida em Cajarc, no Lot, aos 16 de junho de 1760, Maria Antonieta Pelras pertencia a uma família de doze filhos. Um de seus irmãos se tomou sacerdote e três irmãs entraram na Congregação das Damas da Caridade de Nevers, onde também ela ingressou quando tinha uns 15 ou 16 anos. Mas sua formosura nada comum fazia-a correr não poucos perigos, razão por que renunciou por completo ao mundo e aos 25 anos pediu ser admitida no Carmelo de Compiègne. Nele desempenhou o ofício de enfermeira. Tinha 29 anos em 1789.

A noviça: Irmã Constância

Maria Genoveva Meunier nasceu em Saint-Denis, na região do Sena, em 28 de maio de 1765, e em 1788 entrou no Carmelo de Compiègne. Tinha que fazer a profissão em fins de 1789, quando um decreto da Assembleia Constituinte proibiu a partir de então, os votos religiosos (outubro de 1789).

Esta dura prova redobrou-se pelas dificuldades criadas por sua família, que ao ter notícia do decreto quis fazê-Ia voltar à casa paterna. Após uma tentativa inútil de um de seus irmãos, interveio a Justiça.

Irmã Constância respondeu aos oficiais: "Senhores, estou aqui com total consentimento de meus pais. Se querem fazer-me sair só porque seu carinho os alarma por causa dos perigos que eu possa correr permanecendo aqui, agradeço-Ihes, mas só a morte poderá separar-me da companhia de minhas Madres e Irmãs".

A Madre Priora escrevia em 14 de agosto de 1790 a uma antiga postulante: "Irmã Constância continua aqui como noviça; não lhe faltaram provações por parte de sua família: atualmente já não querem que lhes escreva nem querem ouvir falar dela; o Senhor o permite para assegurar-Se de sua fidelidade; quanto ao mais, sente-se muito feliz de que agora a deixem tranquila aqui: espera que Deus acabará tocando-lhes o coração e que um dia vejam sem desgosto sua perseverança". Em 1789, Irmã Constância tinha 24 anos.

As Irmãs conversas (externas)

As três Irmãs conversas eram:

Irmã Maria do Espírito (Angélica Roussel) tinha 47 anos em 1789. Procedia de Fresnes, e entrou no Carmelo aos 31 anos. "O Senhor Deus quis provar a paciência dessa querida Irmã com um estado de contínuos sofrimentos, que ela suportou de maneira sumamente edificante para a comunidade, e de uma forma tanto mais meritória quanto era uma mulher naturalmente enérgica e muito ativa".

Irmã Santa Marta (Maria Dufour) também tinha 31 anos quando saiu de sua cidade natal de Bannes, em Sarthe, para entrar no Carmelo. Tudo o que sabemos dela cabe em duas linhas: "Nunca deixou de ser a alegria e o consolo de suas superioras e um motivo de edificação para as Irmãs". Tinha 48 anos em 1789.

Irmã São Francisco Xavier (Isabel Júlia Vérolot), natural de Lignères, em Aube, tinha 25 anos em 1789 e estava há dois anos no Carmelo. Aberta, cheia de entusiasmo e de bondade. "Nossa Madre acreditou ser seu dever, antes que nossa Irmã fizesse seu compromisso, pôr-lhe ante os olhos a perspectiva das adversidades que ameaçavam as Ordens religiosas (isso era em janeiro de 1789): 'Não, querida Madre - respondeu ela com sua habitual ingenuidade e seu falar camponês - pode ficar totalmente tranquila, pois se tiver a alegria de consagrar-me a Deus, não desejo outra coisa. Assim, querida Madre, não se preocupe comigo, que Deus se encarregará disso'."

As torneiras

Duas irmãs nascidas em Compiégne: a mais velha, Ana Catarina Soiron (47 anos em 1789), e a mais nova, Teresa Soiron (41 anos em 1789) eram encarregadas do serviço externo como torneiras desde 1772.

Convém destacar que as irmãs Soiron não eram carmelitas. Eram seculares - não usavam hábito - a serviço da comunidade e solidárias com esta até o martírio, ao qual não quiseram de modo algum subtrair-se. Em razão dessa fidelidade, a Igreja as reconheceu e beatificou junto às carmelitas e como carmelitas.

A prisão

Em 23 de junho de 1794 (depois de cinco anos em que as monjas de Compiègne foram dispersadas em casas de famílias amigas, encontrando-se clandestinamente para alguns momentos comuns de oração), a comunidade presidida por Madre Teresa de Santo Agostinho foi levada ao antigo convento da Visitação de Santa Maria de Compiègne, transformado em prisão. Condenadas à morte na guilhotina em 17 de julho de 1794, as Irmãs renovaram seus votos nas mãos da Priora antes de derramar seu sangue, dando testemunho de que - segundo uma canção entoada por elas durante o tempo em que permaneceram no cárcere - "o amor será sempre vencedor,/ o amor pode tudo".

(Fonte: HUGELÉ, Philippe. El Carmelo de Compiègne en 1789. In: HUGELÉ, Philippe et al. No Ias dejaron ser libres. Burgos: Monte Carmelo, 1998. Tradução/adaptação: Fr. José Gregório OCD)

Da Revista Mensageiro de Santa Teresinha – Ano 87 – Julho. Agosto. Setembro de 2011